Carta dos estudantes de História sobre aulas que ocorrem durante a greve

Para além do que é material, há outras possíveis conquistas em uma greve como o fortalecimento da organização política que tal processo nos proporciona. O amadurecimento decorrente da greve traz consigo também a necessidade de posturas mais firmes daqueles que nela se envolvem. Para não deixar passar tal questão, digamos, pois, quem são aqueles que estão envolvidos em um processo de greve e a partir disso, aproveitemos o momento para uma breve discussão sobre o que é soberano e o que é violento.

Muitos dirão que há o direito individual de não fazer greve e de não acatar, portanto, o que por Assembleia for deliberado, uma vez que este espaço responde aos anseios de uma parcela dos estudantes, não do todo. Ainda complementarão dizendo que ocorre uma violência para com aqueles que entram em sala de aula seguindo um princípio do direito individual.

Ora, deveríamos então ceder aos anseios individuais em todos os momentos nos quais nossas posições não são contempladas pelo coletivo? Sabemos, a partir da vivência em sociedade, que esse não é o caminho.

A Assembleia estudantil é o espaço máximo de debates e deliberações que possuímos, é um meio no qual se consegue estabelecer votações sem esvaziamento político. Um espaço de concentração dos anseios da coletividade e por tudo isso, os membros que a compõem a chamam: soberana. É também graças a esse espaço de ampla discussão que os métodos de luta podem ser questionados e outros pensamentos agregados a fim de que se dê uma ampliação da organização estudantil e, por conseguinte, as conquistas por nós almejadas.

Se a Assembleia é um espaço de tamanha soberania porque então o piquete e outras intervenções às salas de aula se fazem necessárias? Porque infelizmente muitos fingem não reconhecer a vontade de uma maioria e para as deliberações serem respeitadas é preciso que se intervenha dentro dos espaços físicos. Nesse sentido, é costume dizer que o direito individual esta sendo corrompido e dai provém a tal violência.

É violento, pois, obstruir salas de aula, mas entrar em aula desrespeitando as deliberações coletivas que acontecem em Assembleia (soberana e aberta) é um ato de liberdade e democracia? Não, sabemos que esse caminho também não é o melhor. A violência e a falta de democracia se dão no dia a dia de uma greve, quando determinados indivíduos (acostumados a agir dentro da coletividade em todas as esferas da sociedade) ignoram os anseios da maioria estudantil e se submetem a “pressões externas”.

Por reconhecermos esta verdadeira violência e ainda corroborarmos a ideia de soberania das Assembleias e a importância de um todo mobilizado é que repudiamos ações que contrariem tais princípios.

Os estudantes não podem se sujeitar a quaisquer “pressões externas” que lhe são colocadas. Uma greve com conquistas e negociações possíveis acontece por meio da organização verdadeiramente coletiva que não prejudique outros colegas utilizando-se do falso argumento do direito individual.

Repudiamos aulas que ocorram durante a greve porque estas sim são um instrumento violento e antidemocrático, uma ação opressiva e que desconsidera tudo que tentamos conquistar. Essas aulas demonstram um desrespeito a coletividade e a negligência para com aquelas que diariamente chamamos “colegas”. A maior manifestação individual possível dentro de um processo como o que vivenciamos atualmente é a utilização de nossas consciências no exame do que é certo ou errado para com aqueles que enfrentam conosco as mesmas dificuldades de transporte, moradia, alimentação e infraestrutura todos os dias dentro dessa universidade.

Por reconhecermos a legitimidade de uma assembleia soberana, com quórum mínimo e amplo espaço para discussão e por respeitarmos as decisões coletivas é que nós, estudantes de História reunidos em Assembleia de Curso no dia 11 de Abril de 2012, repudiamos o ato de “furar greve” por meio de aulas que ocorrem no CEU ou em quaisquer outros espaços e consideramos tal posição violenta e absolutamente antidemocrática.

 Assinam os estudantes de História reunidos em Assembleia de Curso no dia 11 de Abril de 2012.

Carta aos funcionários

Aos técnico-administrativos da EFLCH/UNIFESP

Funcionários e funcionárias da Escola de Letras, Filosofia e Ciências Humanas, abaixo apresentamos nossa pauta de reivindicação e os convidamos para discussão de questões comuns à comunidade acadêmica. Como é de conhecimento de todos; no dia 22 de março deste ano em Assembleia Geral no Campus, os estudantes deliberaram greve por tempo indeterminado, inicialmente com um eixo de luta debatido entre os discentes desde o início das atividades acadêmicas.
Em assembleias posteriores foram discutidos e aprovados os pontos de pauta de reivindicação em torno dos tópicos; a saber: infraestrutura universitária; acesso e permanência; repressão; transparência; fim das fundações privadas e fim das terceirizações na universidade. A pauta especificada está em anexo.
Entendemos que é fundamental a unidade na luta dos que estudam e trabalham na UNIFESP Guarulhos. Pela primeira vez na história do nosso campus, no dia 04 de abril de 2012 os docentes decidiram paralisar as atividades acadêmicas discutindo nossa atual conjuntura e questões relacionadas à infraestrutura universitária, debatendo inclusive sobre suas próprias reivindicações.
Desde o início, o movimento grevista na EFLCH/UNIFESP buscou uma profunda reflexão acerca das políticas de privatização, precarização e elitização do ensino superior público.
Em 2011 em todo o país, servidores técnicos administrativos das universidades e institutos federais permaneceram em greve por mais de três meses. Lutaram contra o congelamento dos salários por dez anos (PLP549/2009); terceirização de serviços e as medidas do governo de mercantilização do ensino com a privatização de hospitais e maternidades universitários (MP 520/2010); entregando-os às fundações de direito privado. No período aproximadamente nove reitorias das universidades e IF’s foram ocupadas; as ações fizeram parte do movimento que resite à privatização de direitos sociais.
Sabe-se que muitas das reivindicações dos servidores públicos do nosso campus convergem com as dos estudantes, a exemplo da falta de espaço físico para abrigar a biblioteca, salas de aulas, laboratórios etc. Não falta espaço físico apenas para os estudantes e professores, os técnicos administrativos também estão trabalhando cada vez mais em espaços menores e adaptados; criando assim condições insalubres de trabalho. Como podemos verificar os que estudam e trabalham na universidade têm todos os motivos para se mobilizarem de forma unitária para combater a precarização do trabalho e do ensino em defesa da educação contra as medidas governamentais; parte de uma política mais geral de mercantilização da educação pública.

Comissão de comunicação do Comando de Greve;

Guarulhos; 09 de abril de 2012.